As Estruturas de Terra na Arqueologia do Acre

 

Introdução

 

A pesquisa arqueológica na Bacia Amazônica vem despertando o interesse dos especialistas desde o século passado. Somente a partir da década de mil novecentos e sessenta, no entanto, é que ela encontrou um rápido desenvolvimento, sobretudo pela ação das equipes do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém–PA. Em 1976 teve início o Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas na Bacia Amazônica – PRONAPABA, sob a coordenação do Dr. Mário Simões (daquele Museu) e da Dra. Betty Meggers da Smithsonian Institution – USA. Nos seus primeiros anos o PRONAPABA teve, ainda, a coordenação do Dr. Clifford Evans (da SI)*.

Desde então, especialmente em função da pesquisa de salvamento e do interesse de outros pesquisadores, os trabalhos vêm se desenvolvendo de forma acelerada, aumentando os dados disponíveis sobre o passado local.

Nosso trabalho pelo PRONAPABA1 efetivou-se a partir de 1977 e, de acordo com a coordenação do Programa, teve por objetivo preliminar levantar a maior soma possível de informações com a prospecção ao longo de bacias hidrográficas determinadas, para estabelecer as bases iniciais do conhecimento sobre padrões de assentamento de antigas populações locais.

Após a determinação extensiva de inúmeros sítios resultante dos trabalhos mencionados, houve a seleção daqueles que demonstraram, pelo acervo recolhido, um potencial informativo mais promissor quanto às questões em pauta, com o consequente retorno para a prática de escavações específicas.

Muito tem sido escrito sobre o problema do povoamento da Amazônia, desde sua identificação com o “inferno verde” até o “paraíso perdido”. A realidade, no entanto, é outra. Meggers2 procurou mostrar que os habitantes indígenas da região realizaram, por milênios, uma convivência harmoniosa com a natureza e que a ocupação contemporânea, atuando de forma indiscriminada, não conseguiu imitar colocando em risco todo(s) o(s) ecossistema(s) amazônico(s).

Entendemos, desde logo, ser necessário para o arqueólogo ter uma visão abrangente sobre o assunto. Entendemos também que há uma constante inter-relação entre o homem e a natureza, devendo ser isto compreendido por todos os que se propõem a decodificar o grau de relação entre ambos. Nem a natureza determina o comportamento nem o homem está fora dela (com a sua “superioridade tecnológica” como creem alguns). É necessário dispormos do conteúdo dialético da questão em que natureza e homem se inter-relacionam. Aproveitando, ambos, os elementos colocados à disposição entre si, em nenhum momento aceita-se que um determina o outro, pois o homem responde àquela que o acolhe desafiando-a e vice-versa, como numa reação em cadeia. Culturas, portanto, seriam diferentes leituras e interpretações operadas no campo do saber humano a respeito de uma multiplicidade infinita de fatores naturais. A visão é, pois, mais do que dialética, por considerar o todo, mesmo que só percebido pelas partes ou a partir do estudo de seu conjunto. Pode-se imaginá-la ainda como um esquema orgânico, integrado (holístico mesmo). Ao procurarmos entender justamente este “todo”, somente o faremos descobrindo suas partes componentes e detectando-lhes o código. Quanto menos especulativas, distorcidas ou até mesmo irreais são as interpretações, tanto mais possuidoras de um conjunto suficiente e coerente de dados. Precipitar o todo interpretativo sem mesmo possuir tal conjunto, tem permitido construções teóricas confusas, de pouca precisão e frágil fundamentação, induzindo ao erro os menos avisados. Poderemos sucumbir às visões interpretativas feitas para a ocupação pré-histórica da Amazônia, no total desconhecimento de porções territoriais, ainda neste nível mesmo, imensas?

Desde 1977 que nosso trabalho vem se ocupando da pesquisa em duas enormes bacias hidrográficas: as dos Rios Juruá e Purus. A publicação do trabalho completo, embora não definitivo dado o volume de informações e elementos interpretativos que incorporará, ainda deverá aguardar alguns anos. Entretanto, os detalhes abrangendo toda a pesquisa numa abordagem ainda preliminar encontram-se em vias de publicação. Neste texto pretendemos divulgar apenas um aspecto específico das pesquisas, conduzidas na área dos Rios Iaco, Acre e Iquiri (em torno da capital do Estado do Acre, Rio Branco), a respeito da existência de algumas estruturas de terra em torno de determinados sítios arqueológicos localizados por nós. Mas, evidenciando nosso interesse em torná-la pública e, anteriormente às notas previstas para divulgação no presente ano, que pouco puderam considerar a respeito desses vestígios, esperamos agora complementar as citadas notas iniciais antes mesmo da monografia final prevista.

 

Histórico Descritivo

 

Logo no primeiro sítio localizado por nós em 1977, próximo à cidade de Rio Branco, pudemos constatar a existência de uma estrutura circular em forma de valeta pouco profunda, com um pequeno acúmulo de terra em forma de mureta na área externa do círculo. Posteriormente mais uma série delas foram localizadas, algumas das quais nos forneceram material cerâmico arqueológico. Localmente são consideradas como “trincheiras” de guerra do Acre e nunca antes haviam despertado a atenção. Aliás, cumpre ressaltar termos sido os primeiros pesquisadores a trabalhar em toda a bacia do Purus acreano e do Juruá em todo o seu curso.

Valetas já haviam sido noticiadas em outras partes da Amazônia, especialmente no Xingu. Simõesreferencia-se a pesquisadores anteriores que identificaram estas valetas como obras defensivas dos índios do lago Kuikuro mas, pelas avantajadas dimensões das mesmas, ele põe em dúvida serem artificiais, embora não descarte a ideia.

Nós tivemos oportunidade de visitar as obras militares ainda existentes na Vila de Porto Acre e observamos que são muito diferentes daquelas identificadas por nós e para a maioria das quais temos a comprovação, fornecida pela cerâmica, da sua antiguidade ou, pelo menos, da sua relação com a pré-história local.

Podemos sintetizar suas características:

Quatro delas estão ao longo da rodovia para a cidade de Xapuri, saindo de Rio Branco.

A primeira a cerca de 24 km da capital localiza-se na fazenda Palmares. A estrutura tem cerca de 100 metros de diâmetro e está encoberta pela mata “capoeira” (ou secundária). Foi feita uma escavação circular com cerca de um metro de profundidade e a terra acumulada na parte exterior do círculo, formando mureta (ver figura 1). Parte dela foi destruída por trator que derrubava a mata. O terreno é plano e a 150 metros da mesma há fonte de água potável de boa qualidade.Esta estrutura forneceu material da fase Quinari (ver nota 4). Sítio AC-IQ-2.

Figura 1

 

A segunda, próxima à sede da mesma fazenda Palmares, localiza-se a cerca de 28 km da capital do Estado. Estrutura nítida, também com mata capoeira mas à borda do campo, tem cerca de 65 metros de diâmetro, também circular. A largura da valeta rasa e do montículo conjunto chega a 10 metros de alguns locais (oito em outros) e com cerca de um metro de profundidade. A água está a cerca de 150 metros. Boa nascente, vertente para o rio Iquiri (Vale do Ituxi). Também em área plana, com ligeiro declive para a nascente. Não forneceu material, mas está na área da Fase Quinari também. Sítio AC-XA-1.

A terceira, na mesma estrada, cerca de 42 km de Rio Branco, é o sítio AC-IQ-1, no Campo das Panelas, ou do Gavião, região muito plana e sem cobertura vegetal de porte, lembrando o cerrado. É uma estrutura irregular (ver figura 2), parcialmente destruída pela estrada de rodagem e tem, na atualidade cerca de 100 x 80 metros e a largura da valeta-mureta é de cerca de 8 metros, também com uma altura de cerca de um metro. Água em vertente do lado oposto da estrada. Córrego Iquiri.

Figura 2

 

A quarta, Sítio Capatará, não forneceu material arqueológico, mas está na mesma área da Fase Quinari, AC-IQ-9. Esta estrutura é diferente das demais. Trata-se de uma mureta reta, com cerca de dez metros de extensão, na capoeira, com um metro de altura. Tem córrego a cerca de 100 metros que deságua no igarapé Iquiri. Também não forneceu cerâmica suficiente para associação segura, mas tem relações com a Fase Quinari. A propriedade onde se encontra o Sítio está a cerca de 65 km da capital, no município de Plácido de Castro.

A quinta, AC-IQ-8, Sítio Catuaba, no mesmo município, no quilômetro 53 da rodovia para Porto Velho, forneceu cerâmica da Fase Quinari. As estruturas de terra, diferencialmente, são pequenas plataformas com cerca de 8 metros de extensão, por quatro de largura, com quase um metro de altura em área de antiga mata, agora em plantio. Encontram-se sobre pequena elevação colinar baixa, na base da qual corre igarapé que deságua no Abunã.

Outras estruturas foram localizadas fora da área das estradas atuais.

A primeira, no município de Assis Brasil, é a mais distante das estruturas mencionadas neste estudo até agora. Fica na margem esquerda do rio Acre, sobre pequena colina de cota de 15 metros e a cerca de 300 metros daquele rio e a 150 metros de igarapé de água limpa.

A estrutura é pouco profunda, parcialmente destruída, pois há casa sobre ela. Trata-se do Sítio São Francisco (AC-XA-3) que forneceu material da Fase Xapuri (ver nota 5) . Sobrou seu lado sul, evidenciando ter sido a mesma circular. Cacos no interior e camada ocupacional de cerca de 30 cm de espessura (Figura 3).

Figura 3

 

Ainda no vale do rio Acre, porém próximo da capital, localizamos outra estrutura circular, esta com cerca de 120 metros de diâmetro e localizada em terreno de antiga mata primária, segundo o relato do proprietário que a considerava trincheira da guerra do Acre. Trata-se do Sítio Boca Quente, AC-RB-1, que não forneceu material, embora possa ser relacionada à área de dispersão da Fase Quinari. Mureta e valeta com cerca de 6 metros de largura, por menos de um metro de altura. Dentro dos padrões, ou seja, a mureta parecendo ter sido construída com terra da valeta e localizada no perímetro externo desta.

No vale do rio Iaco, próximo a cidade de Sena Madureira, desta distando cerca de 19 km, na estrada velha para Rio branco, localizamos o conjunto mais complexo de estruturas. Trata-se do Sítio Lobão (AC-SM-1) com as seguintes características (Figura 4):

A estrutura maior tem cerca de 50 metros de diâmetro e o conjunto valeta-mureta tem até 2 metros de largura por cerca de 50 centímetros de altura e apresenta o detalhe do interior ser mais baixo do que a área externa. A 150 metros de distância há outra estrutura, bem menor, com cerca de 20 metros de diâmetro e valeta-mureta baixa, não chegando a 40 centímetros de altura, sendo mais visível a depressão. Alinham-se mais ou menos no sentido Norte/Sul. Ao Norte delas há grande mancha de terra preta, distante cerca de 200 metros. Em toda a área foram recolhidos fragmentos cerâmicos e nos foi doada peça inteira4 . A 50 metros, além da terra preta, em área também enegrecida, em terreno de plantio com cerca de 50 cm de espessura já revirado, recolhemos inúmeros fragmentos de peças semelhantes. A terra preta mencionada tem cerca de 13 metros de extensão por 5 de largura e está, atualmente cortada pela estrada. Recolhemos carvão que deu datação atual (contaminado).

Todo o conjunto está em elevação de cota suave (menos de 10 m) e o igarapé Paris corre na sua base, desaguando no Iaco.

O material cerâmico relaciona-se com a Fase Iaco5 .

Sem dúvida é o conjunto mais complexo localizado pela nossa equipe até o momento.

Figura 4

 

Qual teria sido a função, ou funções, dessas estruturas?

Explicar a funcionalidade de qualquer vestígio arqueológico é sempre empresa arriscada, embora o pesquisador ao tentar escapar do universo descritivo-morfológico para o funcional-ideológico esteja, no entanto, cumprindo requisito necessário ao processo de reconstituição.

No caso em pauta, nossas sugestões podem ser apoiadas não somente no lógico princípio indutivo como, sobretudo, na verificação prática já que, infelizmente para nosso propósito, dispomos de elementos semelhantes em uso, podendo-se inferir daí – como, aliás, é de praxe pelo método etnográfico – a equivalência do observado “in vivo” com o pretérito ou desaparecido.

Preliminarmente, foi-nos possível notar que as áreas onde se localizam as estruturas são planas ou elevações muito suaves. Quando estas ocorrem, os vestígios materiais ocupam seu topo. No interior de florestas e próximas a igarapés quase se confundem com a natureza num mimetismo que pudemos supor intencional. Em princípio, evocam obras de defesa, delimitação de espaços, embora isto possa não caracterizar uma função de teor eminentemente prático.

Círculos mágicos de proteção ou efetiva obra contra a surpresa de ataques inimigos, elas podem ter sido uma, outra, ou ambas as coisas.

Para induzir nosso raciocínio, podemos iniciar analisando o tipo mais simples de estrutura, descrito para os sítios AC-IQ-8 e AC-IQ-9 (muretas de terra, isoladas ou múltiplas).

O solo acreano é pobre em nutrientes e a própria floresta é que o recicla para se manter viva. A derrubada desta provoca seu empobrecimento completo e, em poucos anos, expostos à erosão da chuva e à luz do sol, em contato com o ar, que provoca a morte das bactérias anaeróbicas responsáveis pela transformação dos resíduos vegetais em humus, ele se torna estéril ou incapacitado para a prática agrícola6.

Nós tivemos a oportunidade de ver o atual morador do AC-IQ-8 plantar sua roça, raspando a estreita camada fertilizada pela queimada, acumulada em pequenos montículos alongados (que lembram os nossos túmulos). Ele concentrava, assim, a terra húmica para o plantio. É muito provável que as duas estruturas abordadas cumprissem a mesma função.

Nos demais casos, das estruturas de tendência circular, a valeta pode ter sido resultante da retirada de terra fértil, superficial que, acumulada no exterior do círculo, formava a mureta do perímetro externo. O conjunto “valeta-mureta” poderia, assim, cumprir a função de criar um obstáculo entre o exterior e o interior do círculo. Elas, porém, são facilmente transponíveis e, do ponto de vista puramente defensivo, o ideal seria o oposto: valeta no exterior e mureta no interior, alteando a posição do defensor em relação ao atacante.

Em visita a uma aldeia “Curina” do igarapé Matrinchão no Juruá amazonense, próximo à cidade de Eirunepé, pudemos observar que a aldeia atual (em 1983) estava cercada por uma mureta de terra, toda plantada de “ananás”, cujas ramagens espinhentas (ou cortantes) formavam densa barreira, impedindo de forma eficaz, qualquer tentativa de cruzá-la, pelo menos a pés descalços, por homens e animais.  

É lícito, então, concluir que a estrutura arqueológica tivesse o mesmo objetivo. A valeta no interior, porque a mureta plantada é que se responsabilizaria pela defesa. O acúmulo de terra nesta última proporcionaria o humus necessário para o plantio do “ananás” ou de qualquer outra planta com iguais características. Sua função, portanto, não deveria ser a de criar um obstáculo pela altura e sim a de formar uma barreira vegetal entre os dois lados do círculo.

No caso da estrutura do rio Iaco, do Sítio AC-SM-1, mais complexa, podemos entender aquela de menores dimensões como tendo uma função semelhante para proteger uma área pequena e por isso privilegiada (residência de um chefe? Lugar especial?). Também, por se notar somente a depressão rasa, circular, poder-se-ia supor ter sido um “terreiro de dança” anexo à aldeia próxima, embora seja quase impossível se comprovar esta hipótese7.

Conclusão

 

De qualquer forma, no entanto, tenham sido estas as funções das estruturas ou qualquer outra diferente, o fato é que elas representam um interessante e excitante vestígio das antigas populações indígenas que habitaram aquela parte da Amazônia.

Faz-se mister que a pesquisa tenha prosseguimento no Estado do Acre e que outros se interessem em aprofundar o trabalho, tornando nossa pré-história ainda mais compreendida e seus detalhes melhor esclarecidos. Nosso esquema vem proposto como um esboço inicial, sendo imprescindível sua complementação. Que as novas contribuições, no entanto, mostrando sua validade ou não, estejam sempre apoiadas no mesmo nível de argumentação demonstrado a partir da utilização de dados técnicos e cientificamente sólidos.

♦ Ondemar F. Dias Jr. - Diretor do Departamento de Pesquisas do IAB. Presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira (mandato 1987/89). Professor Titular de História da América do IFCS da UFRJ, e pesquisador do INEPAC – Sec. Cultura – RJ.

♦ Eliana T. Carvalho - Coordenadora de Pesquisas do Departamento de Pesquisa do IAB. Membro do Conselho Editorial da SAB e pesquisadora do INEPAC – Sec. Cultura – RJ.

Notas:

 

* Tanto o Dr. Clifford Evans quanto o Dr. Mário Simões vieram a falecer após iniciado o PRONAPABA, de forma que hoje a coordenação do mesmo vem sendo competentemente exercida pela Dra. Betty Meggers. 

O PRONAPABA terá a sua primeira publicação geral lançada ainda no ano corrente, sob a editoração da Dra. Meggers. Uma súmula da pesquisa no Acre, sob a responsabilidade destes autores integrará a mesma.Anteriormente publicamos uma síntese no catálogo da Exposição “Aspectos da Arqueologia Amazônica: a participação do IAB no PRONAPABA” que foi montada na Casa do Capão do Bispo, entre 1981 e 1987.

Meggers, Betty: “Amazonia: man and culture in a counterfeit paradise” – Aldine, Chicago 182 págs. il. 1971. Versão traduzida para o português por Maria Yeda Linhares e publicada pelas Editoras Civilização Brasileira (1ª ed. 1975) e Itatiaia (2ª ed. 1987), sob o título: “Amazônia, a Ilusão de um Paraíso”.

3 Simões, Mário: “Considerações Preliminares sobre a Arqueologia do Alto Xingu” in PRONAPA I – Resultados Preliminares do Primeiro Ano de Pesquisas. Pub. Av. Mus. Paraense Emílio Goeldi, Belém – PA, nº 6, pp. 129/152.

Esta peça, com a parte superior fragmentada vinculava-se à Fase Iaco e se enquadra no tipo diagnóstico descrito na nota 5, sendo uma das primeiras em bom estado de conservação que puderam ser resgatadas pela equipe.

De uma maneira muito superficial pode-se dizer que o Estado do Acre tem, dentro do que se conhece até hoje, duas grandes Tradições cerâmicas provavelmente relacionadas a horticultures amazônicos de “terra firme”. A Tradição Acuriá, no Vale do Juruá e que não será abordada aqui e a Tradição Quinari, na Bacia do Purus/Abunã. A Tradição Quinari é integrada pelas Fases Iquiri, Xapuri, Iaco e Quinari. De uma maneira ampla, os sítios são pequenos com reduzido material, camada ocupacional pouco espessa ou inexistente, preferencialmente na floresta que cobre a maior parte do Estado. As fases Quinari e Iquiri têm sítios no campo aberto. Apresentam pouca decoração, ocorrendo na última a presença de vasos “caretas” (em forma de rostos, antropomorfos). Embora as formas variem, o padrão diagnóstico é o do vaso que lembra um cilindro inserido num globo. A Fase Iaco apresenta vasos deste tipo, de grande porte, com enterramentos secundários em plena floresta. As estruturas estão predominantemente vinculadas à Fase Quinari, mas pudemos observar uma delas na Fase Iaco e outra na Fase Xapuri. Esta última é a que apresenta menor quantidade de material e formas menos típicas.

O interessado deve conhecer o filme sobre a Floresta Amazônica, com depoimentos esclarecedores de diversos especialistas, especialmente do Dr. Enéias Salatti. Este filme, produzido sob convênio pela UCGo, integra a série “Décadas da Destruição”. Ver, também os Relatórios já publicados pelo Projeto Radam a respeito do Acre. De forma mais geral, também importante, destaca-se o conteúdo do livro publicado pelo IBGE, em 1977 sob o título: “Geografia do Brasil: Região Norte”, vol. 1, especialmente pág. 89, entre outras.

A respeito de construções deste tipo convém mencionar àquelas feitas pelos Botocudos do sul do Brasil que, conforme nos relata J. M. de Paula (IN: XX Congresso Int. de Amer., Anais do Rio de Janeiro, V. 1: 123-124, 1924), protegem de ataques seus acampamentos “... escavando profundos fojos até dois metros e mais crivados de agudíssimos estrepes nas paredes e fixando ainda, no centro uma lança ...” E mais adiante: “...além destes fojos, são os seus acampamentos sempre guarnecidos de trincheiras construídas, como é evidente, sempre em ótimas posições. São estas trincheiras, em caso de perigo, guardadas durante noite e dia por guerreiros experimentados”.