A Cerâmica Neobrasileira

Originalmente denominamos este material como “caboclo”. Assim o tratamos em 1964 ao descrevermos o material recolhido no “Vale do Elefante”1 na cidade do Rio de Janeiro. Naquele mesmo ano em outra publicação2 retomamos o termo para descrever cerâmica recolhida em Nova Iguaçu. É bem antigo, pois, nosso trato com este material. Acreditamos mesmo serem estes trabalhos pioneiros no assunto.

Com início do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (Pronapa), patrocinado pelo CNPq e Smithsonian Institution, mais material do mesmo tipo e origem foi analisado por nós. Contávamos, no entanto, desde o princípio, com uma Terminologia publicada por Chmyz em 19663  e resultante do encontro dos arqueólogos reunidos no CEPA para a organização daquele mesmo Programa. A cerâmica cabocla, após exaustivas discussões para a procura de um melhor designativo, passou a chamar-se de Neobrasileira e como tal foi, então, preliminarmente caracterizada e revisada em 1968. Já como uma Tradição, voltou a ser descrita em 19764 pelo mesmo editor na segunda edição da citada terminologia.

Com o andamento do Pronapa algumas fases da Tradição Neobrasileira foram reconhecidas e o material bem descrito. De nossa parte, em 1971 publicávamos a Fase Parati onde podem ser encontradas as características diagnósticas bem elaboradas5. Certos elementos gerais, no entanto, podem ser reconhecidos nas diferentes Fases, até agora descritas, nos diversos pontos do país onde foram localizadas. Tentaremos sumarizá-los e esclarecer alguns deles tidos como mal compreendidos ou explicados por muitos pesquisadores que tentam, a partir das descrições disponíveis, identificar o material proveniente do seu próprio trabalho.

 

Tecnologia

 

De uma forma geral, a pasta da cerâmica Neobrasileira é bem constituída. As argilas empregadas são finas e os temperos encontrados são quase sempre finos, embora variem de tipo. O quartzo predomina, seja quebrado ou moído e algumas vezes provenientes das areias utilizadas como anti-plástico. Neste caso os grãos apresentam-se rolados, esféricos ou elípticos, na dependência da origem das mesmas. Muitas vezes a própria argila mantém lamínulas de mica, que no processo de alisamento, pela fricção, assomam à superfície.

Entre os temperos são comuns os grãos de feldspato e hematita. Podem ocorrer carvão e cerâmica amazônica feita nos mesmos moldes; possui tempero de ossos moídos, fragmentos de casco de quelônios, cariapé e carvão.

O método de manufatura predominante é o anelado ou de roletes em espiral. Algumas peças pequenas podem ser modeladas livremente, mas o torno nunca é empregado. Cerâmica torneada indica, geralmente, produção manufatureira (entendendo-se estes termos como "produção não doméstica" e destinada ao comércio). Cerâmica de torno ocorre frequentemente associada a Neobrasileira, como um elemento constituinte do Sítio, servindo, inclusive, para caracterizar a Tradição. É, no entanto, artigo de comércio, de compra e, normalmente, produzido fora da unidade social que deu origem ao Sítio estudado.

Os roletes são finos ou chapados, mas o trabalho resultante é normalmente bom, com peças delgadas em relação ao tamanho do vasilhame. Em função de tudo isto é padrão geral a textura coesa da pasta, podendo ser ou não de estrutura laminar. Ocorrem vazios, espaços ocos, deixados por restos orgânicos eliminados durante a queima.

O elemento diagnóstico de importância é a queima. Esta é, predominantemente, redutora.

A queima redutora é aquela produzida sem contato com o ar, efetuada em fogueiras ou fornos fechados. Já foram localizados alguns desses fornos em diversas partes do país, mas o mesmo resultado pode ser obtido por queima em armação do tipo “balão” de carvão. Nem sempre a redução é completa, ocasionando manchas oxidantes nas faces ou paredes, além de núcleos mais claros (coloração tendente para o vermelho). A queima redutora proporciona maior resistência ao material, o que permite a pouca espessura encontrada nas paredes do vasilhame. Além disso, ela é a responsável pela coloração escura das peças e pela manutenção de carbono na pasta.

Observando-se a fratura dos cacos pode-se ver o processo de queima, dependendo da coloração mantida nas proximidades das faces e no interior, ou núcleo. Na cerâmica Neobrasileira o predomínio é dos tons cinzentos e negros, indicativos daquele tipo de queima. Deve-se levar em conta o fato de que esta queima é proposital, objetivando dar resistência e coloração específica ao vasilhame e que isto não indica se tratar de “queima incompleta” como comumente se encontra na descrição corrente deste material na bibliografia brasileira.

O tratamento das superfícies é comum. Normalmente a peça é simplesmente alisada, sem preocupações maiores. São comuns as estrias produzidas pelo emprego de instrumento do tipo espátula. Não há diferenciação notável entre o tratamento da face externa e interna, exceto quanto à decoração, exclusiva da face externa. O alisamento com seixos é muito comum e quando aplicado na face externa pode ser entendido como decoração, tipo “polido estriado”. Conforme já foi considerado, a coloração das faces é escura, predominantemente, podendo ocorrer manchas oxidadas.

Não são comuns os banhos e os engobos. O vidrado muito raramente ocorre, neste caso limitado ao banho de pó de galena que deixa uma capa transparente de cor amarelada e que pode ser obtido à baixa temperatura, capaz de ser proporcionada por um forno do tipo usado.

A decoração é também diagnóstica. Encontram-se sobrevivências tipicamente indígenas, como o corrugado (de pequenas dimensões) o ungulado e, muito comumente, o escovado, além do já citado polido estriado. Um elemento diferencial  nos é dado pelos padrões do inciso. Este é muito variado e diferente daquele encontrado na cerâmica indígena. Provavelmente os padrões do inciso sejam exóticos (africanos?) e aculturados. Linhas simples ou paralelas em cujo espaço interior surgem aplicações de pontos formando desenhos. Existem muitas combinações de inciso e ponteado, inciso e ungulado, além de linhas incisas onduladas, isoladas ou em associação com outros tipos de decoração.

A pintura é muito rara, embora já tenha sido observada. É, no entanto, diferente da indígena, sendo muito pobre.

A decoração normalmente ocupa a parte superior das peças. Seu campo é, pois limitado. Exceção para o escovado, que pode ocupar todo o vasilhame. Também se encontram peças em que a parte superior (pescoço e borda, por exemplo) tem um tipo de decoração (inciso, ungulado, ponteado, etc.) e o bojo é escovado. Também o polido estriado, se considerado como decoração (e não simples técnica de alisamento) pode ocupar todo o campo da vasilha.

O polimento é muito raro e, quando ocorre, pode ser também considerado decoração por se tratar de elemento aplicado em peças selecionadas, que fogem ao comum.

A decoração é, pois, predominantemente plástica e aplicada às faces externas. Pode-se considerar o inciso, com suas variações, o elemento característico da cerâmica Neobrasileira no litoral do país. Na Amazônia são comuns os roletes aplicados e digitados, especialmente na borda ou região sub-labial.

Aplique: são comuns os acréscimos aplicados na face externa do vasilhame. Desde pequenos “botões” (raros) a cabos, feitos com cilindros curtos de massa e normalmente localizados na borda. Pequenos reforços externos e perfurações sugerem ter sido utilizados como pontos de apoio para suspensão por cordéis. O mais comum, no entanto, são as “asas”. Estas, construídas em cordéis finos da pasta, são colocadas longitudinalmente na face externa. Podem variar de duas a quatro e até oito numa peça. São soldadas pela base côncava ou nas duas extremidades por fortes pressões digitais. Estas, aliás, podem ocorrer em toda a longitude das asas. Outras decorações também podem ser utilizadas nas asas, inclusive o ungulado, digitungulado, serrungulado, etc.

Asas vasadas ou alças verticais são muito raras, embora sejam comuns na cerâmica colonial associada. São também raras as asas verticais do tipo “orelha de xícara”.

Predomina, pois, as asas horizontais, presas por pressão na face externa das peças (estendendo-se por pressão, a solda da massa pressionada ao longo do corpo do aplique, geralmente na base).

Esta é uma das mais interessantes características da cerâmica Neobrasileira – as asas múltiplas em uma única peça.

Morfologia

 

As formas do vasilhame em pauta são geralmente simples. Predominam os vasos de corpo redondo, com pequena sinuosidade na área do pescoço (ou estreitamento) e bordas retas, extrovertidas ou levemente inclinadas para o interior ou exterior. Vasos cônicos são mais raros. Pratos e tigelas abertas são também comuns e uma forma de tigela de fundo plano e paredes inclinadas para o exterior (tipo alguidar), parece indicar aculturação colonial.

Também ocorrem tampas, estas como pratos invertidos com alças verdadeiras. Os fundos são, genericamente, suavemente arredondados ou planos. Podem ocorrer pés (muito raramente).

As peças são medianas, embora variem. As dimensões comuns giram em torno dos 30 cm de diâmetro de boca. Peças pequenas, com a média de 10 cm de diâmetro também ocorrem. Grandes “talhas” de dimensões maiores geralmente são feitas no torno (coloniais) mas já foram encontradas algumas de fatura Neobrasileira. Tratam-se sempre de peças utilitárias, tais como pratos, panelas, bacias, copos, tampas e talhas. Ocorrem, associadas, peças de torno coloniais, vidradas ou não e louça importada.

É importante frisar que esta louça importada (considerando-se “importada” como vindo de fora do sítio e não fora do país) é muito comum nos Sítios Neobrasileiros e muitas vezes considerada também como tal. Na verdade, é melhor designá-la como “colonial”. São comuns os alguidares, louça vidrada (tipo faiança) e até mesmo porcelana. A louça e a porcelana normalmente não são feitas em torno e sim moldadas a partir de uma pasta líquida (a “babotina”). Entre o material de torno “colonial” são comuns as "moringas" (reservatório d’água, com pescoço alongado) e as “talhas” (reservatório de água ou cereais, de boca ampliada, com tampa.). Modeladas livremente, às vezes tendo sido utilizada a coxa do ceramista como molde, temos as telhas de goiva. Há toda uma série de artefatos cerâmicos associados à cerâmica Neobrasileira, mas que não são produtos das unidades familiares que produziram esta e que podem ser confundidas pelo pesquisador com menos experiência.

A Neobrasileira6 é, de forma esmagadora, um produto local e de consumo familiar. Permaneceu, ao longo do tempo, vindo a constituir a cerâmica dita “regional” ainda produzida em Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia, Rio de Janeiro e outros pontos do país.

Nela foram mantidos elementos indígenas, observáveis na técnica de confecção e na decoração. Traços europeus podem ser observados no surgimento das “asas” e raras “alças”, pelo menos na região não amazônica, além do fundo plano (comum na cerâmica indígena da região amazônica) e do pedestal (e pés). O tratamento da superfície é basicamente indígena, exceto o vidrado (raro), sendo o polido estriado comum nas tradições indígenas locais, embora possa ser também um traço de outras influências. As formas predominantes podem ser encontradas naquelas citadas tradições regionais indígenas, mas também podem ser “importadas”, provavelmente pelo contato, com grupos escravizados africanos. É muito provável que seja desta origem o conceito observado de aplicação do inciso, com seus padrões específicos, mas falta ainda um estudo do material africano nos países de origem (algo que deve merecer a atenção de algum pesquisador).

Finalmente não se pode esquecer que esta cerâmica é acompanhada, muitas vezes, de cachimbos de barro, angulares, moldados ou modelados livremente, com inúmeras decorações plásticas e de cor escura. Discos perfurados, provavelmente usados como pesos de rede ou tortuais de fuso, são também comuns.

Artefatos de pedra podem ser encontrados em associação, especialmente lâminas de machados de tradição indígena e até mesmo lascas de quartzo cortantes (no Estado do Rio de Janeiro) além das “pederneiras” importadas do exterior. Estas se aproximam muito, tipologicamente, dos raspadores quadrangulares e podem, até, ser confundidas com eles, mas eram peças para provocar a fagulha que incendiava a pólvora nas armas da época.

Objetos de ferro, especialmente lâminas de machado, facas e facões, canivetes e tesouras, além de outros elementos encontrados comumente na “tralha de cozinha”, são também comuns.

Já foram registrados, também, objetos de vidro. Estes e os de ferro são, sem dúvida, provenientes de fora e anexados ao acervo material do grupo local.

Embora toda esta série de elementos materiais ocorram com frequência associados, nem por isso podem ser confundidos com a cerâmica Neobrasileira propriamente dita. Esta, em suma, é sempre de confecção local, de cor segura7 indicando queima redutora, com decoração, tratamento de superfícies e formas que indicam aculturação entre elementos indígenas, europeus e africanos. Representam bem os primeiros traços da sociedade brasileira, especialmente daqueles seus membros que constituíam a população dominada no processo colonial.

Autor: Ondemar Dias - Diretor de Pesquisas do IAB e exerce atualmente o cargo de presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira. É professor Titular de História da América no IFCS da UFRJ e pesquisador do INEPAC da Secretaria de Cultura do Governo do Estado do Rio de Janeiro.

Notas:

 

O trabalho referido é: “Cerâmica Cabocla do Vale do Elefante”.Boletim do IAB nº3, 6 pags. 1964.

O material descrito da região de Nova Iguaçu no Rio de Janeiro está no Boletim do IAB nº4, pags. 1964. “Resumo das atividades de Campo do IAB na Fazenda Calundu”.

Chmyz, Igor: “Terminologia Arqueológica Brasileira para cerâmica”. Manuais de Arqueologia nº 1, CEPA-UFPR. Curitiba, 1966.

Chmyz, Igor: “Terminologia Arqueológica Brasileira para cerâmica”. 2ª Ed. Revista e Ampliada. Cadernos de Arqueologia do Museu de Arq. E Arte Pop. De Paranaguá, 1976.

Fase Parati: Apontamentos sobre uma fase cerâmica Neobrasileira. Revista Universitas – nº 8°/9 Jan./Ago. 1971.

O termo “Neobrasileiro” foi sugerido ao autor por Mário F. Simões – 1914/1985, na Reunião que deu início ao PRONAPA, no Museu de Paranaguá, PA, 1964. Com outra conotação, o termo aparece utilizado na literatura etnológica, já por Curt Nimuendajú – 1883/1945, “... visando marcar a posição intrusiva invasora dos habitantes de origem européia diante dos indígenas do país”, (Viveiros de Castro, E. 1987 xx, “Niemuendajú e os Guarani” IN: Niemuendajú Curt – As Lendas da criação e Destino do Mundo – como fundamentos da religião do Apápocuva – Guarani. Hucitec/Edusp, São Paulo; cf. Schaden, E. 1976:49-59, Leituras de Etnologia Brasileira. Cia Ed. Nacional, São Paulo).

7Embora seja difícil descrever cores, pode-se, tentativamente, relacioná-las, no caso, aos padrões propostos no “Code de Couleurs des Sols” de a. Cailleux. Genericamente elas giram em torno do negro (T73, T91/2), cinzento (P31, 73, 92), castanho (R67/9, 75/6) e mais raramente para o rosado (R11/13, 25/7) etc.