O Sítio D. Laura – Uma Pesquisa de Salvamento num Sítio Tupiguarani

(Publicado originalmente no Boletim do IAB nº 9)

(Por Laura Silva)

Introdução

Este sítio foi localizado quando o Sr. Joaquim M. de Melo - proprietário de um terreno no qual reside situado no bairro Vilar Novo, Belford Roxo, Nova Iguaçu – ao cortar parte do barranco atrás da sua casa para formar uma escada percebeu que havia fragmentado uma parte, possivelmente lateral, de um grande vaso de barro. Alguns destes cacos foram mostrados, por curiosidade, a um amigo, o Sr. Carlos Alberto Gonçalves que, ao identificá-los como algo importante, resolveu mostrá-los à senhora Carmem Salvador, membro deste Instituto. Em nosso laboratório estes cacos foram observados pelo professor Ondemar Dias Jr. que constatou tratar-se de cacos cerâmicos, com decoração, pertencentes a uma urna, possivelmente, Tupiguarani.

Após breves comentários sobre a região do achado sentimos a necessidade de comparecermos ao local, para o salvamento deste material. Organizamos, então, uma equipe e iniciamos os trabalhos que foram executados em dois dias diferentes – 20 e 28 de setembro de 1980 -  de acordo com a disponibilidade de horário do proprietário do terreno.Este sítio foi registrado sob a sigla RJ-LP-43, Sítio D. Laura.

Todo o trabalho de escavação foi devidamente documentado. Foram preenchidas as fichas de registro de sítios, com todos os dados precisos (localização, material, etc.). Todos os conjuntos foram assinalados e desenhados.

O material retirado foi reconhecido como sendo um enterramento de urna Tupiguarani, com acompanhamento, assim descrito:

  • Urna principal, carenada, com decoração corrugado-espatulado e hiperbólica, com cerca de 70cm de altura (encontrada vazia) e retirada praticamente inteira,embora rachada e com a borda fraturada. A urna foi coberta de terra e recoberta por uma tigela carenada corrugada (tampa), sobre a qual foram colocadas tigelas retangulares de fundo do plano – tipo alguidar  – emborcadas. A peça 4 apresentava-se decorada (pintada). A peça 3 apresentou-se parcialmente quebrada pelo descobridor e a peça 1 estava muito fragmentada.

De um modo geral, o material encontrava-se em bom estado de conservação, o que ajudará na sua reconstituição.

Material recolhido no sítio D. Laura

 

Conclusão

Verificamos, pelas características observadas no meio ambiente e no material encontrado, tratar-se de uma área de ocupação indígena possivelmente da Fase Sernanbetiba da Tradição Tupiguarani, pois esta, no Estado do Rio de Janeiro - além de estender-se ao longo do litoral fluminense (aproximadamente 100 km de extensão) da Pedra de Guaratiba até as proximidades de Cabo Frio – também foi localizada, em parte, na Baixada Fluminense, mais precisamente em Nova Iguaçu.

Devido as condições ambientais é provável que a área do achado tenha sido usada apenas como local de enterramento (região mais elevada) e o vale em frente, próximo a um córrego e mais plana, tenha sido uma área de ocupação do mesmo grupo relacionado à urna encontrada.

Quanto ao material verificamos tratar-se de um enterramento tupiguarani, com acompanhamento, porém sem conter mais os restos do esqueleto, provavelmente feminino, tendo em vista o acompanhamento de utensílios de cozinha (tigelas tipo alguidar).

É interessante ressaltar a importância deste material, uma vez que não se teve ainda notícia de padrões de enterramento semelhantes a este, ou seja, de uma urna coberta por duas tampas, na nossa área de atuação.

Posteriormente, no laboratório do IAB, foram iniciados os trabalhos de limpeza e restauração das peças e futuramente serão feitos os estudos de identificação e análise dos mesmos.

Equipe de trabalho

- Coordenação de: Ondemar Dias Jr.

- Chefia de Campo: Paulo Seda e Carmem Salvador

- Pesquisadores: Laura Silva, Eva Sellei, Rosangela Menezes, Eutália Pons, Gilda Andrade, Cíntia Jalles, Marcelo Mazzi e Divino de Oliveira.

 Bibliografia

DIAS JR., Ondemar F. et alii. Arqueologia Brasileira em 1968. Um Relatório Preliminar sobre o Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas. Belém, Mus. Par. Emílio Goeldi, 33p., il. (Pub, Av. 12) 1969.